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A fila não diminui só com mais doadores. Diminui com hospital organizado.

Boa parte das doações que deixam de acontecer se perde dentro do hospital, antes de chegar a qualquer fila. Isso tem conserto, tem nome, e depende de orçamento — que é o que um parlamentar decide.

Três pontos onde uma doação se perde

  1. 01

    O potencial doador não é identificado

    Ninguém no plantão percebe, em meio à rotina da UTI, que aquele caso poderia se tornar uma doação. Sem alguém encarregado de olhar para isso, o caso passa.

  2. 02

    O protocolo não é aberto

    Confirmar morte encefálica exige exames, dois médicos e tempo. Onde não há equipe designada, o protocolo demora ou não começa — e a janela fecha.

  3. 03

    A família é abordada por quem não foi preparado

    A conversa acontece no pior momento da vida daquelas pessoas. Feita por alguém sem treino para ela, a recusa é o desfecho provável.

Os três têm a mesma resposta: uma comissão intra-hospitalar de doação de órgãos e tecidos — equipe do próprio hospital, com essa função, prevista na regulamentação do Sistema Nacional de Transplantes. Onde ela existe e funciona, os três pontos deixam de falhar.

“Mas não seria mais fácil aprovar a doação automática?”

É a proposta que mais aparece — e o Brasil já a teve. A Lei 9.434, de 1997, instituiu o doador presumido. A regra foi revogada em 2001, pela Lei 10.211, depois de uma corrida de gente registrando “não doador” nos documentos e de um aumento da desconfiança no sistema.

A Espanha, sempre citada como modelo, tem consentimento presumido desde 1979 — mas os números só subiram nos anos 1990, quando o país montou a rede de coordenadores dentro dos hospitais. A própria autoridade espanhola de transplantes atribui o resultado à organização, não ao texto da lei.

E há um detalhe que costuma passar: na prática, quase todos os países com presunção continuam consultando a família. Ou seja, mesmo com a lei aprovada, a conversa em casa seguiria decidindo.

Por isso a cobrança aqui é outra: o que comprovadamente reduz fila, e o que está ao alcance de um mandato.

O que você pode fazer agora

Escreva para quem vota o orçamento da saúde

Gabinete conta mensagem recebida. Cinco pessoas escrevendo sobre o mesmo assunto viram pauta de reunião. O texto está pronto abaixo — leia, ajuste com as suas palavras e envie.

Nada disso substitui a conversa em casa

Mesmo com hospital organizado e com lei aprovada, a família continua sendo consultada — no Brasil e em quase todo lugar. Cobrar do poder público é uma frente. A outra é a frase que só você pode dizer.